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Oi, gente! Demorou mas chegou a segunda parte sobre meu acampamento na cidade de Ubajara, eba. No primeiro post sobre a viagem que eu e meu amigo Matheus fizemos em fevereiro acabei contando sobre a chegada na cidade e a nossa visita a gruta de ubajara. Esse aqui é uma continuação (vale a pena acompanhar a história do começo) pra mostrar pra vocês o desenvolvimento de uma aventura trágica. Sim, tragédia! Eu não tô sendo exagerada nem sensacionalista. É só acompanhar esse post pra saber de tudinho!

Saimos do Parque Nacional de Ubajara com a vista completamente limpa por aquele cenário maravilhoso da chapada e uma coisa na cabeça: não vamos mais pagar pra acampar. Sinceramente? Não vale a pena. Infelizmente aqui no Nordeste não temos uma cultura de camping e os poucos lugares que temos pra montar barraca são muito no improviso. Sinto que todos os hotéis que tem jardim estão colocando uma plaquinha de camping simplesmente por achar que é isso que basta pra acampar: um pedaço de grama em um terreno seguro. Eu não vou abrir a boca pra dizer o que é camping e sim pra dizer que eu tenho certeza que não é isso. Decidimos então fazer o que era o plano desde o início: acampar no mato.

Como a viagem foi planejada um pouco de última hora não consegui entrar em contato com a administração do parque pra perguntar sobre a permissão pra acampamento ali. Na maioria dos parques dos Estados Unidos (e acho que do mundo) é permitido acampar se você deixar a natureza exatamente como quando encontrou antes de descansar. Já procurei e muito alguma lei que diga se pode ou não acampar em parques nacionais aqui no Brasil e nunca encontrei nenhuma informação oficial a respeito disto. Na dúvida, melhor não infringir nenhuma lei que eu não conheça, né? Seguimos pra procurar o nosso “mato”.

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Pegamos a via principal de acesso ao parque parando de porta em porta e perguntando se as pessoas conheciam alguma propriedade particular que estivesse um espaço natural pra gente se instalar. E depois de uns 40 minutos andando, sob o que eu lembro de ser o tempo nublado mais quente que já peguei nessa vida, acabamos achando o Paulinho que salvou nossa vida. Ele é um senhor que mora numa casa branca que fica no lado direito da mesma estrada, no sentido de quem volta pra cidade.

O Paulinho mostrou pra gente um terreno completamente tomado de mata virgem que ele estava cuidando para um outro proprietário que não morava na cidade. Ele acompanhou a gente até uma clareira bem sombreada por árvores altas onde podiamos ver a cerca que separa o terreno particular do parque. Ali não dava pra ver nem ouvir tanto a casa do Paulinho quanto a estrada que pegamos. Perfeito!

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Enxada em mãos, hora de limpar o lugar pra montar o acampamento. Enquanto o Matheus procurava um lugar potencial longe dos formigueiros eu fazia charme pra ser Miss Enxada 2015. O ideal é sempre procurar lugar longe de formigas e com abrigo pra proteger a barraca da incidência direta do sol. Cuidado com as árvores que dão frutos, tipo mangueira. Eu mesma já levei manga na cabeça e não recomendo acampar assim, haha. Outra coisa muito importante é montar a barraca com a entrada fazendo oposição com a localização em que o sol nasce. Ninguém merece acordar com sol na cara, né?

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Optamos por usar a barraca do Matheus, que é da marca Guepardo e tem capacidade pra 3 pessoas. Ela é ideal mesmo pra duas pessoas pois as marcas de barraca sempre calculam quantas pessoas deitadas cabem dentro da barraca. E é um espaço bem mínimo. Calcule que uma cama de solteiro tem 90cm de largura e dá pra você deitar e rolar ali. Na barraca são em média 75cm por pessoa. Dá pra deitar e ponto. Rolar? Dormir de bruços? Dormir com a perna mais pro lado? Abraçar travesseiro? Nem pensar. Sempre recomendo que você calcule o espaço com o espaço de 0,3 pessoas a mais por pessoa. Ex: se você vai acampar com mais 2 amigos o ideal seria pegar uma barraca pra 4 pessoas. (3 pessoas + 0,9 pessoas). Se você vai com outra pessoa tenha uma barraca pra 3 pessoas e assim em diante. Ter espaço pra guardar as mochilas e equipamento é muito importante.

A comida do acampamento não poderia ter sido escolhida melhor, sim? De casa levei numa vasilha roubada do Espoleto um arroz branco já lavado e temperado (pasta de alho, azeite e sal) pra cozinhar fácil. Quatro latas de atum, já que não precisa cozinhar pra comer e feijão de caixinha. Só esquentar e tcharam! Uma bela janta/almoço. Batatas pra assar na fogueira, leite pro café da manhã com barrinhas de cereal que levamos.. Tudo bem pensado e escolhido pra gente não passar fome. Também levamos duas garrafas de água de 1,5l e adquirimos uma outra ao voltar pra casa.

Pra cozinhar levei uma panela pequena e fizemos uma fogueira deveras improvisada pra cozinhar o arroz/feijão. E eu, claro que fui inventar de fritar o atum, né? Deteeeesto comida fria.

É aqui que acontece o plot twist nessa história. Tava tudo dando muito certo, indo bem demais. Acho que os deuses gregos ficaram com inveja e resolveram fazer o nosso dia ir por água abaixo. Literalmente.

Quando o arroz tava começando a ficar bom, logo após essa foto ali de cima ser tirada, o céu começou a cair sobre nossas cabeças. Por Tutatis, quanta chuva! A chuva derramou água na nossa comida e apagou aos poucos nossa fogueira. Enquanto o Matheus brigava comigo pra me abrigar antes que uma inundação pudesse acontecer eu retrucava com “manoeanossacomidaeuquerocomereutocomfomemeudeusaacomidavaiaprontalogonossaficaprontologoporfavordeus”. Quando a comida ficou pronta a gente simplesmente entrou na barraca colocando em prática nossas habilidades ninjas adquiridas em treinamento na selva. Sentamos na porta com os pés pra fora, tiramos as botas, batemos o barro e nos trocamos em algo de 2 minutos, bem rápido. Foi só a gente estar seco e com muito frio pra chuva cair de vez.

A comida quente ali dentro deixou o tecido impermeável da Guepardo com cheiro de atum pra sempre. E dá-lhe sentar e fofocar e contar histórias até essa chuva parar, amigos. A chuva interrompeu nosso almoço por volta das 14h e parou só pras 17h30. Passamos a tarde inteira confinados na barraca reclamando do tempo e da ideia de ter escolhido acampar no inverno nordestino mesmo olhando a previsão do tempo. Nunca ignorem isto, ok? Se tá escrito que vai chover é porque existe a possibilidade e você deve SEMPRE contar com o azar.

Quando a chuva resolveu dar uma trégua levantamos pra escovar os dentes. Matheus foi primeiro. Abriu o zíper da porta, se levantou e falou desesperado “cara, me passa seu canivete e fecha tudo que eu acabei de ver um bicho bem grande”. Era um cachorro? Um avião? O Super Homem? Não, era uma onça. Ele descreveu perfeitamente um animal que tinha tudo pra não ser um cachorro. E a gente bem tinha lido aqui que uma das espécies encontradas no parque é a onça parda ou onça suçuarana. Clique aqui pra ver quão amigável este animal é. Ficamos com o canivete aberto a noite inteira ouvindo todos os barulhos que vocês podiam imaginar.

Deitados no colchonete inflável conseguimos ouvir animais andando devagar ao redor da barraca, cheirando a barraca e lambendo as latas de atum que ficaram no lado de fora. O ideal seria lavar as latas que usamos e deixar em uma sacola mas na pressa que a chuva nos causou o jeito foi abandonar as latinhas ali na fogueira mesmo, assim como as batatas que acabaram não cozinhando. A gente nunca vai saber se o animal que foi até as latinhas foi a mesma onça ou algum tatuzinho ou bicho da mata. Fato é: eles estavam ali o tempo inteiro e mesmo com diversas tentativas de ver os animais com a lanterna não conseguimos ver nada. E sair da barraca? Nem! Muito medo do desconhecido, haha. Nota mental: nunca mais deixar comida aberta na natureza! Tensos como nunca, acabamos dormindo até o dia seguinte.

E que dia, amigos. Fomos dormir extremamente cedo e acordamos por volta de 7 da manhã. A tensão era tanta que a gente só pensava em uma coisa: sair dali. Tiramos o barro da barraca, lavamos as panelas, jogamos o lixo no lixo, agradecemos o Paulinho por tudo e pé na estrada pra tentar antecipar a passagem que era pras 23h.

Eu e Matheus lamentando a falta de ônibus pra voltar pra civilização.

O combinado seria fazer uma trilha pelo parque mas com aquela chuva as trilhas estariam difíceis de fazer e o nosso cansaço da noite anterior era absurdo. Fomos até a rodoviária e adivinhem: nenhuma vaga pra antecipar nosso ônibus. Daí a gente ficou o dia na rodoviária, numa praça extremamente derrotados ouvindo Rammstein e filosofando, no posto de gasolina, num restaurante que paramos pra almoçar e numa pizzaria pra jantar. Beeeem devagar a vidinha em Ubajara. Mas o que esperar de um domingo no interior, né? Quando anoiteceu veio a surpresa: um frio surpreendente e uma neblina deveras gostosa. Me senti em Silent Hill, tanto que abri o CreepyPasta e li um conto sobre o Ted The Caver (um conto sobre um cara que explora cavernas, pra combinar com nossa aventura), traduzindo tudo pro português. Conclusão: eu e o Matheus somos dois medrosos, hehe.

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E a lição que aprendi foi mais que uma. Não deixar lixo de comida aberto, procurar sempre deixar tudo em uma sacola plástica fechada. Não acampar em período de chuva em cidade fria, principalmente se isto for into the wild. E por último mas não menos importante: adquirir um material pra cozinhar melhor em acampamentos! Tem que ser um kit com panela, prato, talher, caneca.. Apesar dos pesares, foi uma viagem bem legal. Chegamos em Fortaleza as 5 da manhã pra dormir e dormir. Espero poder repetir a aventura de acampar em breve, desta vez na praia. Longe de chuva, sim? Sim!!!

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